Jogos e apostas compulsivas
Primeira supervisão da comunidade. Um caso de transtorno do jogo em que a decisão clínica mais importante não foi qual técnica aplicar, mas por onde começar.
- Quando um comportamento é fortemente reforçador, retirá-lo sem colocar nada no lugar tende a fracassar. A primeira intervenção pode não ser sobre o comportamento — pode ser sobre o contexto que o mantém disponível.
- A rede mostrou seis processos passíveis de intervenção. A pergunta útil não foi “o que fazer?”, e sim “o que este paciente consegue fazer agora, sem mudança brusca?”.
- Reestruturação cognitiva no início esbarra em pensamentos egossintônicos. Antes de contestar a crença, psicoeducar sobre o acaso — que flexibiliza sem confrontar.
- Monitorar quantitativamente (valor gasto, horas, intensidade do impulso) cumpre duas funções: gera linha de base para redução gradual e produz motivação pelo próprio gráfico.
- Formular em rede também redistribui a culpa: mostra ao paciente que o padrão tem raízes contextuais, históricas e socioculturais, não apenas falha de caráter.
O caso
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Homem, final da casa dos 20 anos, personal trainer em academia de funcionamento contínuo, trabalhando em turno de madrugada. Procurou terapia meses antes, mas remarcava e desmarcava sucessivamente: quando perdia o dinheiro nas apostas, ficava sem condições de pagar a sessão. Compareceu efetivamente após um ganho expressivo, que funcionou como o empurrão para iniciar o tratamento — e pagou o tratamento com esse dinheiro.
Formula a própria demanda como dependência de apostas, mas acrescenta uma ressalva importante: não é só pelo dinheiro, é passatempo, basta eu estar ocioso. Migrou de apostas esportivas para jogos de cassino em sites não regulamentados. Já apagou centenas de aplicativos numa única madrugada; já instalou bloqueadores; chegou a trocar de aparelho celular para conseguir usar um bloqueador incompatível com o modelo anterior — e ainda assim encontrou acesso por sites clandestinos.
Prejuízos e padrão atual
Cinco a seis horas diárias envolvido com jogo. Prejuízo financeiro acumulado e dívida contraída em nome de familiar. Queda de produtividade: não consegue divulgar o próprio trabalho nem concluir uma pós-graduação, cujo prazo já precisou renegociar. Sono noturno apenas uma vez por semana, em função do turno.
Gatilhos mapeados. O período ocioso da madrugada, sozinho na academia, com poucos clientes — momento em que surgem os pensamentos de jogar. O trajeto longo até o trabalho. E os bônus diários enviados pelas plataformas: mesmo com notificações desativadas, ele abre o aplicativo para resgatá-los, sabendo que ali haverá dinheiro disponível para apostar.
Pensamentos. Terei sorte; dessa vez vai dar certo; a plataforma vai me pagar — e, com força particular, preciso recuperar o que perdi. Emoções: ansiedade antes; arrependimento e vergonha depois das perdas. Rede de apoio desgastada: a família está cansada do discurso de mudança que não se sustenta, e ele parou de falar sobre o assunto.
Um dado que o próprio paciente traz e que a supervisão tratou como sinal de motivação preservada: ao ver pessoas em situação de rua, ele pensa que terminará assim se não parar — e isso o angustia.
A formulação em rede
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A rede não foi montada para nomear um transtorno, mas para decidir por onde entrar.
A leitura da supervisão organizou o caso em torno de um ponto de partida contextual. Salário baixo em vínculo formal atípico, trabalho noturno, poucos clientes no turno, celular sempre à mão, ócio prolongado e solidão — um arranjo que funciona simultaneamente como gatilho e como fator de manutenção.
Sobre esse contexto incide uma tendência à impulsividade e à procrastinação. O resultado é uma ativação afetiva — ansiedade — acompanhada de cognições de recuperação e controle. O jogo entra como regulação: alivia a ansiedade momentaneamente. A perda produz culpa e vergonha, que aumentam a ansiedade basal, que por sua vez aumenta a pressão para jogar de novo.
O contexto de ócio noturno solitário com acesso irrestrito — sustenta todo o resto da rede.
Ansiedade → jogo → alívio → perda → culpa e vergonha → mais ansiedade → jogo.
Mudança contextual: turno de trabalho, ocupação do tempo ocioso e fonte alternativa de renda.
Dois moderadores atravessam o ciclo: a intolerância ao afeto — pouca margem para sustentar ansiedade sem agir — e as cognições ilusórias de controle, que dão ao impulso uma justificativa que parece racional.
Por onde começar: o princípio da substituição
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O ponto de maior rendimento clínico da supervisão foi menos uma técnica do que um princípio de sequenciamento.
Daí a inversão da ordem esperada. Um protocolo orientado pelo diagnóstico provavelmente começaria pela redução gradual do comportamento-alvo. A formulação por processos apontou antes para o ambiente: sem alterar o contexto que deixa o comportamento disponível e atraente, a redução tende a falhar.
As estratégias contextuais discutidas foram três, todas a negociar com o paciente e nenhuma tratada como certeza:
- Migrar o turno de trabalho para o horário comercial. Uma única mudança atinge vários pontos da rede ao mesmo tempo: reduz o ócio da madrugada, restaura o sono noturno, diminui o tempo livre com o celular e reduz a vulnerabilidade fisiológica associada à privação de sono.
- Captar ao menos um cliente particular. Além de ocupar tempo, produz uma experiência concreta de que existe caminho mais previsível para ganhar dinheiro — o que compete diretamente com a função que o jogo ocupa.
- Monitorar antes de restringir. Estabelecer limites de gasto e de tempo só depois de conhecer a média real, para que o teto seja calibrado e não arbitrário.
A lógica que unifica as três é a de redução de danos: conhecer a linha de base, escalonar a diminuição em degraus toleráveis, e aceitar que haverá recaídas dentro do processo.
Monitoramento: por que quantificar
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A supervisionanda já havia aplicado registro de pensamentos disfuncionais, com boa adesão. A sugestão foi acrescentar dimensões quantitativas ao instrumento que já está em uso — não substituí-lo.
O limite do registro aberto é que ele não gera métrica: descreve bem o episódio, mas não permite ver se o comportamento está cedendo ao longo das semanas. Um registro diário simples com escalas curtas resolve isso:
- Apostou hoje? Sim ou não — a porta de entrada; se não, o registro termina aqui.
- Valor gasto em faixas curtas, calibradas pela média do próprio paciente.
- Horas envolvidas com jogo, incluindo o tempo assistindo a conteúdo sobre apostas.
- Intensidade do impulso e dificuldade de controlá-lo, quando houve tentativa.
- Pensamentos e sentimentos durante e depois do episódio.
A segunda função do registro quantitativo é motivacional. O gráfico devolve ao paciente uma evidência que a memória não produz — dias de regulação bem-sucedida ficam visíveis, e a percepção de progresso passa a se apoiar em dado, não em impressão.
Um detalhe do caso que muda o monitoramento
O dinheiro que custeia a terapia vem do próprio jogo. Isso torna o registro do valor gasto ainda mais relevante — e cria uma tensão clínica que merece nome: o comportamento-alvo está, no momento, financiando o tratamento que pretende reduzi-lo. A supervisão não resolveu esse ponto; ele fica como questão viva do caso.
Afeto e impulso: o que cabe agora
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A supervisionanda levantou o uso de ação oposta, da DBT, já nesse momento inicial. A avaliação foi de que ainda não — com o sistema de recompensa fortemente mobilizado e o contexto ainda facilitador, agir na direção oposta ao impulso sem outras estruturas no lugar tende a criar acúmulo de pressão. A técnica não foi descartada, foi adiada.
Para o momento, o que cabe são estratégias de tolerância ao mal-estar e regulação emocional de baixo custo — incluindo recursos fisiológicos simples de aplicar quando o impulso aparece. Sobre isso vale um registro de método: a supervisão citou, entre as opções, manobras de temperatura. São recursos com uso descrito na literatura de regulação emocional, mas convém aplicá-los com critério e avaliação individual, e nunca como estratégia isolada de enfrentamento.
A estratégia central discutida foi o adiamento. A regra combinada é simples: surgiu o desejo, marca-se um intervalo curto — dez minutos — antes de abrir o aplicativo. Passado o intervalo, se a vontade persistir, o paciente decide dentro dos limites que já combinou.
Cognição: psicoeducar antes de reestruturar
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Os pensamentos do paciente são egossintônicos: ele os experimenta como razoáveis, não como sintomas. Contestá-los diretamente no início convida à defesa — e ele tem um contra-argumento imediato e concreto, já que a própria terapia está sendo paga com dinheiro ganho no jogo.
A saída proposta foi contornar o confronto: em vez de reestruturar, psicoeducar sobre o acaso. A entrada é antropológica antes de ser clínica — o ser humano busca prever e controlar o ambiente, porque prever evita perigo e garante ganho. Jogos de azar sequestram exatamente esse mecanismo, oferecendo a sensação de previsão num sistema em que as variáveis que determinam o resultado não estão sob controle do jogador.
Duas intervenções concretas derivam disso:
- Levantar o balanço real. Pedir que estime quanto ganhou e quanto perdeu, em dinheiro, ao longo de todo o período. A pergunta desloca a atenção do episódio isolado — que a memória privilegia — para o acumulado.
- Mostrar que os pensamentos não são dele. Apresentar a lista de cognições típicas do jogo problemático e deixar que ele reconheça as próprias frases ali. O efeito pretendido é duplo: reduz a sensação de excepcionalidade (“comigo é diferente”) e reduz a culpa, ao revelar um padrão descrito e estudado, não uma falha pessoal.
Essas cognições estão bem caracterizadas na literatura. O modelo mais utilizado descreve cinco dimensões: ilusão de controle, controle preditivo, viés interpretativo, expectativas sobre o jogo e percepção de incapacidade de parar (Raylu & Oei, 2004). Frases como “se eu persistir, vou ganhar”, “minha habilidade está melhorando” ou “é só encontrar o padrão” são instâncias reconhecíveis dessas dimensões — o que sustenta clinicamente o argumento de que o pensamento é do quadro, não da pessoa.
Motivação e postura do terapeuta
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A supervisionanda avaliou o paciente em contemplação — reconhece o problema e quer mudar, ainda que sem clareza sobre o caminho. A supervisão concordou, apoiada no fato de que ele antecipa espontaneamente um desfecho temido caso não mude.
O modelo transteórico dos estágios de mudança (Prochaska & DiClemente, 1983) organiza essa avaliação. Vale reter que o próprio modelo prevê movimento não linear: adesão inicial é comum e não garante manutenção, e a recaída faz parte do ciclo em vez de indicar fracasso.
Foi discutido um exercício projetivo de caminhos de vida — mapear o percurso atual e o percurso desejado, e imaginar a frase que resumiria cada um ao fim. A avaliação foi de que não é necessário agora, dado o nível de motivação presente, mas que se torna útil se surgir resistência ou após uma recaída, como recurso para reativar motivação. O produto do exercício costuma ser impresso e mantido visível, funcionando como cartão de enfrentamento.
Postura
- Devolver a rede ao paciente como intervenção, não como diagnóstico interno. Mostrar o padrão tem função dupla: reduz culpa ao evidenciar determinantes contextuais e históricos, e responsabiliza ao tornar visível onde a mudança precisa acontecer.
- Tratar o relato do paciente como verdadeiro até que haja evidência clínica em contrário. Ele afirma que não é pelo dinheiro; há indícios de que talvez seja. Isso se coleta com o tempo, sem pressa e sem confronto precoce.
- Não prometer solução mágica. A conversa explicita que não há atalho: a rede precisa ser modificada, o monitoramento é condição, a redução é gradual.
- Investigar a história do jogo na vida dele — inclusive o comportamento de jogo na família e as regras socioculturais de não perder e recuperar — como preparação para o trabalho posterior com culpa.
Um ponto a aprofundar
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Registro que a supervisão não abordou, e que a literatura recomenda incluir na avaliação deste quadro: o rastreio de risco suicida.
Revisões meta-analíticas indicam que ideação suicida ao longo da vida é substancialmente frequente entre pessoas com problemas de jogo, com estimativas agrupadas em torno de um terço da população estudada, e tentativas em proporção também elevada (Ronzitti et al., 2024). A direção causal permanece incerta pela escassez de estudos longitudinais, mas a frequência é alta o bastante para que o rastreio seja parte da avaliação de rotina — e não apenas uma resposta a sinais explícitos.
No caso descrito, alguns elementos compõem um perfil que justifica atenção: endividamento com envolvimento de familiar, deterioração da rede de apoio, término recente de relacionamento e uma antecipação espontânea de desfecho catastrófico. Nenhum deles indica risco atual por si só — mas juntos recomendam que o tema seja perguntado diretamente, e não inferido.
1. Em um caso seu com comportamento fortemente reforçador, qual mudança contextual teria maior efeito na rede — e o que a torna difícil de negociar?
2. Como você diferencia, na prática, uma crença que ainda é egossintônica de uma já disponível para reestruturação?
3. Que métricas você incluiria num registro diário para o seu caso, e por quê essas?
4. A formulação em rede mudaria a sua ordem de intervenção neste caso? Em que ponto?
5. O que você faria com a informação de que o comportamento-alvo está financiando o tratamento?
Referências
- American Psychiatric Association. (2023). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR (5ª ed., texto revisado). Artmed.
- Hayes, S. C., Hofmann, S. G., & Ciarrochi, J. (2020). A process-based approach to psychological diagnosis and treatment: The conceptual and treatment utility of an extended evolutionary meta model. Clinical Psychology Review, 82, 101908. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2020.101908
- Prochaska, J. O., & DiClemente, C. C. (1983). Stages and processes of self-change of smoking: Toward an integrative model of change. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 51(3), 390–395. https://doi.org/10.1037/0022-006X.51.3.390
- Raylu, N., & Oei, T. P. S. (2004). The Gambling Related Cognitions Scale (GRCS): Development, confirmatory factor validation and psychometric properties. Addiction, 99(6), 757–769. https://doi.org/10.1111/j.1360-0443.2004.00753.x
- Ronzitti, S., Explore et al. (2024). Suicidality among individuals with gambling problems: A meta-analytic literature review. Psychological Bulletin. https://doi.org/10.1037/bul0000411

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